ALMA x CÉREBRO x CONSCIÊNCIA

ALMA x CÉREBRO x CONSCIÊNCIA

É ponto pacífico para todas as religiões que creem em vida após a morte, a crença em uma alma eterna e imortal, a qual subsistiria ao final dessa nossa existência biológica enquanto “unidades de carbono”, preservando nossa essência: nossa consciência, nossa personalidade, nosso caráter, nossas memórias, nossas emoções e nosso conhecimento.

Mas, de fato, essa nossa “essência” nada mais é do que o produto de complexas reações eletroquímicas que ocorrem em nossos cérebros, de forma que se essas reações forem por qualquer motivo afetadas, tudo mais o será, quase sempre transformando-nos em outra pessoa, como são os casos de insanidade adquirida, mal de Alzheimer, influência de drogas, etc.

Historicamente, o ser humano sempre tirou conclusões do “aparente”, confiando na infalibilidade de seus sentidos e percepções. Com base nisso, por um bom tempo, sempre se achou que a Terra seria plana e se encontraria estática, firme e imóvel, enquanto todos os astros descreveriam um movimento circundante em torno dela. Não há outra conclusão a se chegar baseando-se no que vemos.

Da mesma forma, como não conseguimos “sentir” nossos cérebros pensando, nossos pensamentos parecem ocorrer fora de nossos corpos, num outro plano, numa esfera “espiritual”, sem qualquer ligação com aquele órgão, e, ao contrário, como aqui, sim, podemos sentir, o nosso coração parece-nos ser o centro de nossas emoções e sentimentos.

De fato, por muito tempo, filósofos como Aristóteles defenderam que o órgão das ideias e das sensações era o coração e que o cérebro seria apenas um “radiador” destinado ao resfriamento!

Alcmaeon, médico da Grécia antiga (ano 450 AEC), foi quem se aproximou bastante das teorias atuais ao concluir que era o cérebro, e não o coração, o órgão central de sensação e do pensamento.

O curioso caso de Phineas Gage

Há um caso interessantíssimo ocorrido com um homem chamado Phineas Gage. Por suas virtudes pessoais, seu senso de responsabilidade, liderança, eficiência e companheirismo, tinha sido nomeado capataz de um grupo de trabalhadores responsáveis pela construção da via férrea.

A missão do grupo, explodir grandes rochas para permitir assim a colocação dos trilhos. Como de rotina, buracos de uns 30 centímetros eram feitos na pedra e posteriormente preenchidos com pólvora. Para empurrar a pólvora, Phineas utilizava uma barra de ferro de mais de um metro de comprimento e quase 3 centímetros de diâmetro. Mas para seu azar, num certo dia, ao empurrar a barra de ferro no interior do orifício, uma faísca detonou a pólvora. A barra, lançada como um projétil, atravessou a cabeça de Phineas. O ponto de impacto foi na bochecha, logo abaixo do osso zigomático. A barra perfurou depois sua órbita empurrando o globo ocular para fora. Destruindo parte do cérebro, finalmente saiu pela região superior do crânio, provocando um orifício de quase seis centímetros de diâmetro entre os ossos parietais e frontal. A barra foi parar a uns 20 metros, junto com fragmentos de osso e massa encefálica.

Embora tenha sobrevivido e conservado todas sua faculdades intelectuais, salvo a perda do olho, nada parecia indicar a gravidade do seu acidente. Sem problemas de memória, os cinco sentidos perfeitos, movimentos em ordem, conversa fluente, inteligência normal. Mas, sua esposa e outra pessoas próximas notaram alterações dramáticas em sua personalidade.

Era agora instável e irreverente, capaz das condutas e blasfêmias mais grosseiras, mostrando escasso respeito pelos seus semelhantes, impaciente, incapaz de escutar qualquer conselho que se opusesse aos seus desejos. Também se mostrava insistentemente obstinado, teimoso e ao mesmo tempo vacilante, imerso em muitos planos para o futuro mas, sendo incapaz de continuar uma tarefa demasiado longa, mudava-os constantemente.

Já não era mais o mesmo Phineas Gage. A sua “essência” já não era mais a mesma. A sua “alma” havia mudado radicalmente. E, após isso, tristemente acabou perdendo seu emprego, esposa e amigos.

Como já se suspeitava, o acidente provocou a destruição de parte do lobo frontal esquerdo. Sabemos hoje que a região mais anterior do cérebro é responsável pela nossa capacidade de planejamento, a fundamental capacidade de prever o que vai acontecer caso façamos isto ou aquilo. Assim, nos ajuda a tomar a decisão correta, às vezes até de forma não consciente.

Como consequência dessa capacidade de previsão, participa na inibição de respostas inadequadas, o que permite que nosso comportamento seja o mais apropriado para cada situação.

Ora, casos desse tipo – e são inúmeros – só vêm nos mostrar, como já inicialmente proposto, que aquilo que chamamos de “nossa essência” não está vinculada a nenhum tipo de emanação incorpórea, espiritual e transcendental, mas meramente, sim, aos nossos cérebros!

Os religiosos, inconsistentes que são suas doutrinas e crenças, simplesmente não têm respostas honestas para perguntas como:

– uma pessoa que já nasceu com retardamento mental, possuindo, assim, uma alma retardada, que, segundo crido, seria a sua “essência”, será um retardado na “vida futura”?;

– alguém que nasceu são e se tornou louco, portanto, uma outra pessoa, possivelmente, quem sabe, até negando depois as suas crenças iniciais, irá para o “céu” ou para o “inferno”? Lá, seja onde for, ele continuará a ser uma “alma” retardada, ou será restaurada como sã? Com base em quê?;

– alguém que nasce retardado, sem as mínimas faculdades mentais e condições de exercer fé no evangelho, será “salvo” ou “condenado”? (“quem não crer será condenado” – Marcos 16:16);

– mas Deus não seria injusto se condenasse pessoas assim?;

– e se, como se prega, a fim de não admitir injustiças por parte de Deus, todos aqueles que morrerem na “ignorância” serão automaticamente salvos, para quê pregar o evangelho? Não é melhor deixar que todos morram na “ignorância” e se salvem? (“o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” – 1 Timóteo 2:4);

– de uma ou de outra forma, Deus não seria injusto? Um, que teve a sorte de não ouvir o evangelho, ainda que fosse pessoa predisposta a não crer, foi “salvo”, e outro que, por azar, ouviu mas não creu, foi “condenado”! A justiça de Deus seria mera questão de sorte e azar?

Isso tudo é ilógico, irracional e não faz qualquer sentido! É preciso muita “fé” (entenda-se “ingenuidade”), para crer!

Podemos, então, concluir que, com a nossa morte, tudo o que éramos simplesmente deixará de existir, restando apenas o que de nós ficou na memória daqueles que nos conheciam! Essa é a mais pura e crua, ainda que dura, realidade, que cabalmente destrói as falsas esperanças daqueles que, num desesperado anseio de querer viver eternamente e sem os infortúnios desta existência, rejeitam o que é concreto e racional e covardemente se apegam a fantasiosas doutrinas e promessas religiosas desprovidas de qualquer fundamentação.

A verdade é que, diante de nosso medo da inevitável morte e do que acontecerá após, seduzidos por nossos mais profundos e desesperados anseios que gostaríamos que se tornassem realidade, inconformados com o fato de que fatalmente tudo ali termina, sendo-nos por demais cruel essa realidade, inventamos a “alma” e a utopia da “vida eterna”, de uma futura existência em um “plano espiritual”, uma outra dimensão, a qual, oculta aos nossos olhos carnais, mas que temos a “certeza” de que existe, numa confortante ilusão que, mesmo sem qualquer firme embasamento, nos dá algum alento para conseguirmos seguir em frente, sem nossas anteriores preocupações e dúvidas quanto ao futuro incerto.

Estes são os adeptos da covarde filosofia: “às vezes é melhor viver na ilusão de uma mentira, do que se magoar ao descobrir a verdade sobre a realidade.” (Dilsinho Porto).

“A religião é só mais uma forma que o fraco achou para pensar algo melhor e fugir da realidade que o cerca.” (Gustavo Moura).

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Sobre Irineu Costa Junior

Ex-fanático religioso (evangélico por cerca de 30 anos), hoje ateu militante contra as religiões, igrejas, líderes religiosos e superstições em geral, a favor e defensor da ciência, da lógica, da razão e do bom senso.
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