APOLOGIA À RACIONALIDADE

Cada mente humana é única, e palco de medos, conflitos, incertezas, inseguranças, anseios, decepções, mas, também, de felicidades, alegrias e experiências diversas, e ninguém pode sentir, na plenitude, o que se passa debaixo da pele do outro.

À medida que envelhecemos, somos amadurecidos e moldados por tudo aquilo que vivenciamos e sentimos no decorrer dessa nossa jornada pela vida, uns em maior escala, e outros, nem tanto.

Somos, de fato, seres volúveis e, por vezes, contraditórios. Mudamos constantemente, e isso, de um certo ponto, tem seu lado positivo.

É importante, sim, abandonadas nossa arrogância e prepotência, estarmos abertos a outras possibilidades, sem nunca nos achamos os donos da verdade absoluta, inerrantes e infalíveis em nossos entendimentos.

Para tomar-se partido entre duas posições conflitantes, de forma imparcial, justa e honesta, é preciso, de forma primordial, sempre que possível, ter vivido, sinceramente, na prática, os dois lados da coisa para, só então, se definir. E isto, para mim, é básico, pelo que o fiz!

Mas, por outro lado, o que ocorre, infelizmente, pela própria humanidade de nossa natureza, é que nosso entendimento é fortemente influenciado por nossos enganosos sentidos e pela emoção, aflorada de nossos mais profundos e ocultos anseios, a qual, muitas vezes, quando estamos por algum motivo fragilizados e predispostos por algum tipo de sensibilização, se torna muito mais forte do que a lógica, a razão e o bom senso, fazendo-nos equivocar em nossas decisões, enxergando de forma distorcida a realidade.

“O jeito de ver pela fé é fechar os olhos da razão.” (Benjamin Franklin).

“As idéias que nos levam à mais alta evolução e felicidade, não são aquelas idéias guiadas pelas nossas enganosas emoções, e sim são aquelas idéias que são verdadeiramente harmoniosas e lógicas. Porque muitas vezes em nossas vidas, as idéias baseadas nas nossas emoções, estão sem percebermos, contrárias ao que é realmente certo e são contra a lógica e a razão.” (Tairone Vertrof Smuller).

“Não vamos esquecer que as emoções são os grandes capitães de nossas vidas, nós obedecemo-lhes sem nos apercebermos.” (Vincent Van Gogh).

Ora, a pessoa que renuncia à lógica, à razão e ao bom senso e se deixa levar e ser convencida pelo emocional, torna-se presa fácil de manipuladores e exploradores, aderindo às suas idéias e ensinamentos sem duvidar, sem questionar, sem avaliar e sem refletir, tornando-se, depois, ainda que inconscientemente e não tendo má-fé em seus objetivos primários, um canal para a perpetuação do engodo.

Veja que é justamente este o conceito imbuído em “fé”: crer-se, de forma incondicional, em algo subjetivo, improvável e ilógico, e em ensinamentos e dogmas, normalmente passados pela tradição de povos antigos, supersticiosos e com restritos conhecimentos científicos, baseando-se unicamente na fragilidade dos sentidos, emoções e na aparente concretização de nossos maiores anseios de subsistir à morte, abolidas as doenças e tristezas!

“O meme da fé cega assegura sua própria perpetuação pelo simples expediente inconsciente de desencorajar qualquer inquirição racional.” (Richard Dawkins).

A “fé cega” já fez-nos crer ser o mundo achatado, coberto por uma redoma sólida, o firmamento, cercado por abismos, apoiado em pilares, localizado no centro do Universo, com o Sol, a Lua e as estrelas a girar em torno dele, reprimindo e até matando todos aqueles que disso discordassem, os então considerados “hereges”!

“Afirmar que a terra gira em torno do Sol é tão errado quanto dizer que Jesus não nasceu de uma virgem.” (Cardeal Belarmino).

“Porque experimenta claramente que a Terra está parada e que o olho não se engana quando julga que o Sol se move, como também não se engana quando julga que a Lua e as estrelas se movem” (idem).

A própria história nos mostra quantos preconceitos foram criados, quanta opressão foi imposta, quantas “guerras santas” foram travadas, quantas vidas foram desperdiçadas, em nome da insana e ilusória “fé cega” em divindades notoriamente providas de vis atributos meramente humanos: sanguinárias, coléricas, ciumentas, vingativas, intolerantes e injustas. É só conferir!

Desde o extremo dos homens e crianças-bombas, e dos horrores e atrocidades do “Santo Ofício”, passando, entre outras, pelas 2 ursas que destroçaram 42 crianças simplesmente por terem chamado um profeta de careca, pelas 70.000 pessoas mortas por que Davi “pecou” ao levantar o senso do povo, e pelas mortes por apedrejamento e ateamento de fogo dos filhos de Acã – que absolutamente nada tinham a ver com a história -, por que este “pecou”, no Velho Testamento – como pode alguém ter coragem para chamar essas coisas de “justiça divina”? -, até os sempre existentes preconceitos de homofobia e misoginia, tudo é feito de forma aprovada pelas “divindades” e aceito sem reservas pelos “fiéis”!

E, mesmo assim, após todas essas hediondas irracionalidades, absurdamente, as pessoas continuam se apoiando em suas fés, com suas mentes entorpecidas e cauterizadas, passivamente aceitando e engolindo tais barbaridades como se fossem algo normal e tolerável, sem, sequer minimamente, se chocarem!

Não pode haver outro nome a ser dado ao processo que as leva a essa condição de odiosa ou passiva “fé cega”, a não ser “lavagem cerebral”, o que, logicamente, é impossível para elas o admitirem!

“Em toda a história do homem, ninguém que tenha sofrido lavagem cerebral acreditará ou aceitará que sofreu tal coisa. Todos aqueles que a sofreram, usualmente, defenderão apaixonadamente os seus manipuladores, clamando que simplesmente lhes foi ’mostrada a luz’ … ou que foram transformados de modo miraculoso.” (Dick Sutphen).

Doutra forma que não esta, seria inconcebível para qualquer um aceitar a existência, sujeitar-se e reverenciar uma “divindade” tão hipócrita, ilógica, contraditória e até sádica, que supostamente teria, com todo o amor de um pai, criado o homem à sua “imagem e semelhança”, para depois cegá-lo e usar como instrumento de ódio e destruição contra seus próprios semelhantes, simplesmente por não compartilharem de suas “verdadeiras” crenças.

A “fé cega”, tão encorajada e falsamente tida por virtude, é, em fato, pura ingenuidade e deliberada sujeição ao controle e à manipulação!

Os próprios conceitos cristãos de “céu”, “inferno” e “Satanás” – inexistentes, a princípio, no Velho Testamento, mas herdados posteriormente de mitologias de outros povos – aliados à doutrina paulina da “predestinação” – perceptivelmente contrária à do “livre-arbítrio” -, ao lado da imoral estória de Jó, ridiculamente colocam-nos como meras peças em um tabuleiro de xadrez, simplesmente fazendo parte de um jogo, onde estaríamos sendo manipulados e usados por antagônicas “entidades superiores” travando uma infantil disputa.

A doutrina paulina da “salvação unicamente pela fé em Cristo” – claramente combatida, aliás, na epístola de Tiago, demonstrando não haver consenso entre os próprios escritores – retira todo o mérito das “boas obras” – como já fora anteriormente assim considerado, por lógica – injustamente fazendo com que os mais vis criminosos que se “arrependeram” na última hora, entrassem no “céu”, em detrimento daqueles que, mesmo vivendo toda uma vida com caráter e abnegação, não quiseram – ou não tiveram,  por qualquer motivo, oportunidade de – crer.

Nessa mesma linha, a doutrina do “pecado original” – também inexistente no Velho Testamento, na qual o suposto pecado de Adão teria passado para toda a humanidade, implicando na morte de todos – a qual teria culminado com o sacrifício vicário de Jesus para obter o seu cancelamento, contradiz as próprias palavras de “Deus” quando diz:

“Naqueles dias não dirão mais: Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotaram. Pelo contrário, cada um morrerá pela sua própria iniqüidade; de todo homem que comer uvas verdes, é que os dentes se embotarão.” (Jeremias 31:29), e,

“A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho, A justiça do justo ficará sobre ele, e a impiedade do ímpio cairá sobre ele.” (Ezequiel 18:20).

Ora, isso posto, a suposta morte de Cristo para esse fim torna-se vã!

Além disso, a ilógica presumida – mas amplamente aceita – existência do personagem “Satanás”, o “Diabo”, o “arqui-inimigo de Deus”, clara e contraditoriamente colocam “Deus” na posição de cúmplice e conivente com o mal, como já bem disse o filósofo grego, Epicuro:

“Deus deseja prevenir o mal, mas não é capaz? Então não é onipotente.

É capaz, mas não deseja? Então é malevolente.

É capaz e deseja? Então por que o mal existe?

Não é capaz e nem deseja? Então por que lhe chamamos Deus?”

O aqui ora apresentado não é, senão, uma pequena amostra dentre inúmeras contradições, inconformidades e falhas comprovadamente existentes nos escritos, nas doutrinas, na tradição e nas crenças cristãs, ocultas aos olhos dos que se deixaram cegar por suas fés, mas evidentes aos demais.

Qualquer um que não teve deliberadamente sua mente entorpecida e cauterizada pela “fé cega”, ou que, como eu, teve, mas conseguiu se libertar, consegue perfeitamente enxergar tudo isso!

Aos demais, resta a chance de se libertar do engodo, apenas usando, para isso, aquilo que sabiamente nos foi graciosamente dado pela própria natureza: a racionalidade, a lógica e o bom senso!

 

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Sobre Irineu Costa Junior

Ex-fanático religioso (evangélico por cerca de 30 anos), hoje ateu militante contra as religiões, igrejas, líderes religiosos e superstições em geral, a favor e defensor da ciência, da lógica, da razão e do bom senso.
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